EXTRATO DE: O RETORNO DO PÊNDULO

Sobre a Psicanálise e o futuro do mundo líquido

Autor: Zygmunt Bauman E Gustavo Dessal

Editora: ZAHAR (2014/2017) Leitura em AGO/2017)

 

Gustavo Dessal, argentino, psicanalista e escritor, vive na Espanha

 

O livro é resultado de uma troca de mensagens entre os dois pensadores a partir de 4 artigos publicados por Bauman na imprensa.

 

PREFÁCIO DE GUSTAVO DESSAL

 

O mestre é aquele que nos faz aprender a única lição magistral que nos põe no caminho de um saber verdadeiro, e que consiste em nos darmos conta de que nenhuma palavra pode dizer toda a verdade.

 

[Estamos] em um sistema cuja engenharia social se baseia no álibi do progresso universal.

 

O amor só se dimensiona à medida que é posto em circulação a troco de nada, e se afirma quando é capaz de renunciar à miragem da unidade do outro.

 

Valores máximos do iluminismo: a crença na soberania da razão, a fé no progresso e a veneração incondicional pelo saber cientifico.

 

Não esqueçamos que o discurso contemporâneo só admite a diferença na medida em que esta não comprometa nem confronte os interesses do mercado. Só a partir do momento em que mostra sua força na participação geral do consumo é que a comunidade gay começa a ser reconhecida pelo discurso dominante.

 

Pulsão de morte também conhecida como Tânato, é um termo introduzido pelo psicanalista austríaco Sigmund Freud.

Freud descreveu duas pulsões antagônicas: Eros, uma pulsão sexual com tendência à preservação da vida, e a pulsão de morte (Tânato) que levaria à segregação de tudo o que é vivo, à destruição. Ambas as pulsões não agem de forma isolada, estão sempre trabalhando em conjunto segundo o princípio de conservação da vida. Como no exemplo de se alimentar, embora haja pulsão de vida presente - sendo a finalidade de se alimentar a manutenção da vida - ela implica-se à pulsão de morte, pois é necessário que se destrua o alimento antes de ingeri-lo. Aí presente um elemento agressivo, de segregação, este se articula à pulsão primeira, como sua necessária contraparte na função geral de conservação. 

 

A ideia de amor líquido designa algo que se encontra em aguda sintonia com a desintrincação pulsional considerada por Freud, isto é, o triunfo de Tânatos sobre Eros. A degradação liquida do amor é um grave sintoma de nossa época, na qual a ação corrosiva do discurso neoliberal encontra cada vez menos obstáculos para transformar cada um de nós em mercadoria.

 

ZB - LIBERDADE E SEGURANÇA: UM CASO DE HASSLIEBE (*)

Palestra proferida em 3 maio de 2012 em Amsterdam

(*) Tradução: lição de amor

 

"Somos organizados de tal modo", disse Freud, "que só podemos desfrutar intensamente o contraste, e muito pouco do estável". (...) "E é muito menos difícil experimentarmos a infelicidade."

 

E para Goethe: "Tudo se suporta nesta vida,/ menos uma sucessão de dias bons."

 

Existem 3 causas das quais tememos que advenha o sofrimento: "a supremacia da natureza, a fragilidade do nosso corpo" e "a insuficiência das normas que regulam os vínculos recíprocos" entre os seres humanos "na família, no Estado e na sociedade".

 

Os impulsos instintivos dos seres humanos colidem indefectivelmente com as exigências da civilização, empenhada em combater e vencer as causas do sofrimento humano.

 

Segurança sem liberdade equivaleria à escravidão, ao passo que liberdade sem segurança desataria o caos. Mas ambas são e continuarão a ser para sempre inconciliáveis.

 

 

A civilização implica um negócio: ganhamos algo à custa de perder outra coisa.

 

Viver em condições de incerteza prolongada ou aparentemente incurável acarreta duas sensações do mesmo modo humilhantes: a de ignorância e a de impotência.

 

Agora multiplicam-se os indícios de que cada vez mais gente cederia de bom grado parte de sua liberdade em troca de emancipar-se do aterrador espectro da insegurança existencial.

 

GD - COMENTÁRIO SOBRE "LIBERDADE E SEGURANÇA: UM CASO DE HASSLIEBE"

 

O homem encontra em si mesmo a mais intensa e incontrolável fonte de sofrimento.

 

ZB - A CIVILIZAÇÃO FREUDIANA REVISITADA, OU O QUE SE SUPOE TER ACONTECIDO COM O PRINCÍPIO DE REALIDADE?

Artigo publicado em 2009

 

Freud: "O domínio da massa por uma minoria continuará a se demonstrar sempre tão imprescindível quanto a imposição coercitiva do trabalho cultural."

 

Sem coação exercida a partir de cima, "o homem é o lobo do homem". (...) E onde há coação, isto é, onde as pessoas se vêem obrigadas a manter um comportamento diferente daquele que suas inclinações naturais ditam, há insatisfação e dissensão, na maior parte do tempo sufocados, reprimidos ou desviados, mas evidentes de vez em quando.

 

 

Eutopia: um bom lugar, onde a segurança e a liberdade estariam perfeitamente equilibradas, sem causar insatisfação nem dissensão.

 

Utopia: um lugar que não está em parte alguma.

 

A civilização não pode prescindir da coerção, e portanto tampouco pode existir sem gerar resistência contra si mesma, na medida em que a coerção, por definição, significa enfrentar situações nas quais a balança se inclina contra fazer o que se quer e a favor de fazer algo que se gostaria de evitar.

 

O padecimento da felicidade truncada é o preço que se paga pelas delícias da proteção.

 

Incerteza, insegurança e desproteção, tornaram-se para muitos de nossos contemporâneos a preocupação mais importante e assustadora (...)

 

O pêndulo de valores começou a se mover em sentido contrário já há várias décadas. Ainda se move e em ritmo acelerado.

 

A linhagem, a família, a fortuna familiar e a continuidade dos vínculos sanguíneos traçavam um eixo em torno do qual teria de girar o itinerário da vida.

 

Sejam expressos ou tácitos, os fins da presente guerra são: a redução do controle parental, a renúncia à presença ubíqua e proeminente dos pais, a determinação e manutenção de uma distancia entre os "velhos" e os "jovens", tanto na família quando em seu círculo de amigos.

 

O que salva os indivíduos de sua tendência autodestrutiva é a submissão à sociedade.

 

Os párias contemporâneos já não são os que recusam ou não conseguem contribuir para os esforços produtivos, mas os fracassam em seus deveres de consumidores e ficam fora (ou são expelidos) do jogo de compras.

 

Hoje, as ansiedades dos jovens e seus conseqüentes sentimentos de inquietação e impaciência, assim como a urgência de minimizar os riscos, emanam, por um lado, da aparente abundancia de opções, por outro, do temor de fazer uma escolha ruim, ou pelo menos de não fazer "a melhor escolha disponível"; em outras palavras, do horror a perder uma oportunidade maravilhosa quando ainda há tempo (fugaz) para aproveitá-la.

 

Nenhuma representação do eu, por mais instantâneo que seja seu êxito, é segura a longo prazo. O que hoje é de rigueur, amanhã ou depois de amanhã estará condenado a tornar-se rançoso e tediosamente antiquado (...) Manter atualizada a representação é uma tarefa de 24 horas por dia e sete dias por semana.

 

A vida da geração jovem é vivida hoje num estado de emergência perpétua. (...) Não há um momento a perder. Desacelerar é desperdiçar.

 

Embora o "princípio de realidade" pareça ter perdido sua batalha mais recente contra o "princípio do prazer", a guerra entre eles está longe de ter chegado ao fim, e o resultado final não está nem um pouco definido.

 

GD: COMENTÁRIO SOBRE "A CIVILIZAÇÃO FREUDIANA REVISITADA, OU O QUE SE SUPÕE TER ACONTECIDO COM O PRINCÍPIO DE REALIDAE?"

 

Se a psicanálise trouxe algo novo e inédito para a história do pensamento foi o de ter contribuído para uma profunda reflexão sobre o papel e o significado do objeto, desafiando a tradição filosófica em seu conjunto.

 

O conceito freudiano de pulsão provavelmente é uma das descobertas mais importantes da história do pensamento. Não existe nenhum aspecto da realidade humana em que esse conceito não demonstre sua esmagadora potencia epistêmica.

 

A psicanálise não pode ser excluída de nenhum fenômeno do qual o ser humano faça parte.

 

O socialismo real tenta impor um ideal humano que se desligou por completo do ser humano verdadeiro.

 

O desejo não se contenta jamais com seu objeto. Empenha-se em sua busca, sempre frustrante (...). Que deliciosa dor causa na alma comprar o  novo smartphone e ficar sabendo, nesse mesmo dia, que a marca acaba de anunciar para os próximos meses o lançamento do modelo seguinte! Acreditávamos haver tocado o céu com as mãos mas o encanto foi fugaz.

 

Freud demonstrou que antes de tudo o objeto possui um valor libidinal.

 

Tudo aquilo que encontramos como substituto não nos restituirá jamais a fantasia daquilo que perdemos.

 

Para Lacan a ação inconsciente não exime o sujeito do dever de assumir a responsabilidade por sua ação.

 

A insatisfação é a marca distintiva do desejo. Ou, como repete Lacan, "o desejo é sempre desejo de outra coisa".

 

Um objeto de consumo não é sinônimo de um objeto de necessidade.

 

Se os seres humanos só fossem regidos pelos rigorosos imperativos da necessidade, o capitalismo simplesmente não poderia existir. (...) Um desejo é a perversão de uma necessidade.

 

Cada produto que sai para o mercado se transforma automaticamente em objeto caduco. Ao mesmo tempo o sujeito demanda o novo, cada vez mais novo, mais rápido, porque o avanço da técnica também pode ser medido em função da velocidade com que um objeto deixa de satisfazer o consumidor.

 

O modelo patriarcal, com sua carga de arbitrariedade e sua pretensão totalizadora, cedeu a vez a um modo de vida no qual os pais, à falta de qualquer modelo referencial, têm praticamente dois caminhos a escolher: recorrer a especialistas para serem aconselhados em todas e cada uma de suas decisões educativas ou renunciar à sua legitima autoridade, tornando-se eles mesmos menores de idade.

 

ZB: O PAINEL DE FREUD (resposta ao painel)

Artigo publicado na Dinamarca em tréplica a um grupo de estudiosos a "A civilização freudiana revisitada".

 

Sou grato a Freud pelos indícios e pistas que me permitem, como sociólogo, observar conexões que do contrário passariam despercebidas.

 

A história da humanidade está salpicada de falsas alvoradas, e a história do pensamento transborda de falsas esperanças. Somo imbuídos pelo desejo de vislumbrar em cada nova oportunidade o anúncio de que os problemas ou mal-estares atuais ficarão para trás.

 

É preciso acelerar o ritmo de circulação, envelhecimento e substituição das supostas/putativas [parece mas não é] novidades para que se mantenha via a fé na resolução de problemas mediante o progresso impulsionado pela tecnologia, esse motor sine qua non da sociedade de consumo.

 

A liberdade e a segurança não podem sobreviver uma sem a  outra, mas tampouco podem conviver em paz. (...) O movimento pendular é o resultado dessa aporia [situação insolúvel].

 

As dualidades são "indissolúveis", e suspeito que a tentativa de dissolvê-las é mais uma versão do afã de encontrar a pedra filosofal, o perpetuum móbile ou a prova da existência de Deus.

 

"A possibilidade de uma ilha", de Michel Houellebecq.

 

Quem sabe até onde chegaremos a partir daqui?

 

 

GD: COMENTÁRIO SOBRE "O PAINEL DE FEUD"

 

O que chamamos realidade é, em suma, um âmbito de significações individuais e impossíveis de universalizar.

 

Bauman: A história da humanidade está salpicada de falsas alvoradas, e a história do pensamento transborda de falsas esperanças.

 

A ênfase que Freud deu à sexualidade do ser falante é o principal motivo pelo qual o cientificismo veio a incluir a psicanálise na lista dos inimigos públicos. Já  não se trata de um escândalo moral, mas do obstáculo que a psicanálise significa para os que levantam a bandeira do absolutismo cientifico e da engenharia social, os que propagam o messianismo da avaliação, a prevenção e a ideologia paranóica da segurança.

 

ZB: PROCURANDO NA ATENAS MODERNA UMA RESPOSTA À ANTIGA PERGUNTA DE JERUSALÉM

Ensaio publicado originalmente em "Danos colaterais".

 

Os deuses só podiam sustentar sua autoridade divina e mantê-la inquestionada coletivamente, como grupo; quanto maior, melhor - de modo que a razão pela qual um Deus ou uma deusa não manteve suas divinas promessas sempre poderia ser encontrada na maldição igualmente divina lançada por outro morador do congestionado panteão, e portanto sem criar rancor contra a divindade em si nem colocar em dúvida sua sucinta sabedoria.

 

Como Leszek Kolakowski incisivamente afirmou: "Deus não deve nada a ninguém" (nem justiça, nem desculpas pela falta desta). A onipotência divina inclui a licença para dar voltas e reviravoltas, dizer uma coisa e fazer outra; pressupõe o poder do capricho e da extravagância, o poder de fazer milagres e ignorar a lógica da necessidade em relação à qual seres inferiores não têm escolha senão obedecer.

 

Em franca oposição à natureza muda e entorpecida que Ele governa, encarna e personifica, Deus fala e dá ordens. Ele também descobre se as ordens foram cumpridas, recompensa o obediente e pune o recalcitrante. Não é indiferente ao que os frágeis humanos pensam e fazem. Mas, tal como a natureza muda e entorpecida, não é influenciado pelo que os humanos pensam e fazem. Ele pode fazer exceções, e as lógicas da coerência e universalidade não estão isentas do exercício dessa prerrogativa divina ("milagre" significa, em última instância, a violação de uma regra e uma renúncia à coerência e à universalidade).

 

Para Mikhail Bakhtin, o medo "cósmico" ou primal á fonte tanto da religião quanto da política.

 

O medo cósmico é também o horror do desconhecido e do invencível - em suma, o terror da incerteza.

 

Os seres humanos continuaram tão vulneráveis e inconstantes como antes, e portanto aterrorizados.

 

Embora transformando seres amedrontados em escravos das ordens divinas, essa extraordinária transformação do Universo em Deus foi também um ato de empoderamento humano indireto.

 

Sem a vulnerabilidade e a incerteza não haveria o medo; e sem o medo não  haveria o poder. [Portanto, o poder é uma concessão que damos a um Outro na expectativa de que não sejamos atingidos pela incerteza.]

 

Carl Schimitt: "O soberano é aquele que tem o poder da isenção." O poder de impor normas deriva do poder de suspendê-las ou torná-las nulas e invalidas. (...) Não apenas a exceção confirma a regra, mas a regra só vive da exceção.

 

Só o incompreensível pode ser objeto de uma crença incondicional.

 

Susan Neiman [a respeito do terremoto de 1755 e do nazismo]: "Lisboa revelou a distância que separava o mundo dos seres humanos; Auschwitz revelou a distância que separava os humanos de si mesmos.

 

Enquanto confrontava os seres humanos sob o disfarce de um Deus onipotente, mas benévolo, a natureza era um mistério que desafiava a compreensão humana: como, na verdade, ajustar a benevolência cum onipotência de Deus com a profusão de desgraças num mundo que Ele próprio havia planejado e posto em movimento?

 

Voltaire em um poema sobre 1755: "O inocente, assim como o culpado,/ sofre do mesmo modo esse mal inevitável".

 

Numa espécie de penalidade pela ineficácia da obediência, da oração e da prática da virtude, a natureza foi despida de subjetividade, sendo-lhe negada, portanto, a própria capacidade de escolher entre benevolência e malícia.

 

O que as preces não conseguiram realizar, a techne, apoiada pela ciência [parece que] decerto conseguiria, desde que acumulasse as habilidades de fazer coisas e as usasse para que coisas fossem feitas. Agora se podia ter a expectativa de que aleatoriedade e a imprevisibilidade da natureza fossem apenas uma perturbação temporária, e acreditar que a perspectiva de forçar a natureza à obediência aos seres humanos seria somente uma questão de tempo.

 

Quando isso iria acontecer dependia unicamente da determinação com que se empregassem os poderes da razão humana. A natureza se tornaria semelhante aos outros aspectos da condição humana que são feitos pelo homem e, portanto, em principio, administráveis e "corrigíveis".

 

As calamidades causadas por ações imorais humanas parecem ser, em princípio, cada vez manos administráveis.

 

Se você junta a afirmação de Schmitt de que soberano é "quem decide sobre a isenção" (e, o que é mais importante, decide arbitrariamente), o que se segue é que a substancia e marca registrada de todo e qualquer detentor de soberania, e de toda e qualquer agencia soberana, são a da "associação e dissociação"; apontando o inimigo a ser "dissociado" de modo que os amigos possam continuar "associados". (...) A estratégia da destruição em nome da construção da ordem é o traço definidor da soberania.

 

Apontar um inimigo é um ato "de decisão" e "personalista", já que "o inimigo político não precisa ser moralmente maléfico ou esteticamente feio" - com efeito, não precisa ser culpado de atos ou intenções hostis; basta que "seja o outro, o estranho, algo diferente e discrepante".

 

Ludwig Wittgenstein: "Compreender significa saber como prosseguir."

 

Stálin era onisciente. Não necessariamente no sentido de distinguir sem equivoco verdade e engano, mas de estabelecer a fronteira oficial entre ambos, o limite que você precisava observar.

 

Stálin protegia o cidadão das conseqüências terríveis do calculo equivocado produzido por sua ignorância. Assim, não importava no final que o significado dos acontecimentos e sua lógica escapassem a você e a "outros como você". O que poderia ter parecido a você uma mistura de eventos, acidentes e acontecimentos aleatórios e descoordenados tinha uma lógica, um projeto, um plano, uma  coerência. O fato de você não conseguir ver essa coerência com seus próprios olhos era mais uma prova (talvez a única de que você precisava) de como era fundamental para sua segurança a perspicácia de Stálin e de quanto você devia à sabedoria e à disposição dele de compartilhar seus frutos com você.

 

A grande questão, que não foi respondida nem chegou a ser feita, [é por que a necessidade dos súditos de restabelecer a confiança era tão poderosa que eles se sujeitavam a sacrificar suas mentes para essa finalidade, e seus corações se enchiam de gratidão quando seu sacrifício era aceito. Para que a certeza houvesse se transformado em necessidade, desejo e sonho supremos, foi preciso que antes se sentisse sua falta. Algo perdido, roubado ou apenas não adquirido.

 

Já que os golpes eram desferidos aleatoriamente (...) também não havia como dizer se existia algum laço inteligível entre o que os indivíduos faziam e o destino que sofriam. (Isso foi expresso pela sabedoria popular soviética na história da lebre que correu em busca de abrigo quando ouviu dizerem que os camelos estavam sendo presos: primeiro eles prendem você e depois você tem de tentar provar que não é um camelo.)

 

Quando todos são o tempo todo vulneráveis por causa de sua ignorância quanto ao que a manhã seguinte pode trazer, a sobrevivência e a segurança, e não uma catástrofe súbita, é que parecem exceção, na verdade um milagre a desafiar a compreensão de um ser humano comum e que exige presciência, sabedoria e poderes sobre-humanos para ser realizado. (...) escapar dos golpes aleatoriamente distribuídos é que parecia uma exceção, um presente excepcional, uma demonstração da graça. Devia-se ser grato pelos favores recebidos. E se era.

 

A vulnerabilidade e a incerteza humanas constituem os alicerces de todo poder político.

 

Na maioria das sociedades modernas as atividades da vida estão asseguradas pela exposição aos caprichos das forças do mercado.

 

O poder político, ao exigir de seus súditos disciplina e observância à lei, pode basear sua legitimidade na promessa de reduzir a extensão da vulnerabilidade (...) [através de uma] forma moderna de governos como um "Estado de bem-estar-social".

 

As funções protetoras do Estado são reduzidas para abarcar uma pequena minoria composta de pessoas invalidas e incapazes de obter emprego (e se antes elas eram "questão de proteção social", agora são "questão de lei e ordem"; a incapacidade de participar do jogo do mercado tende a ser cada vez mais criminalizada.

 

O crescimento da apatia política é testemunho da desintegração dos alicerces estabelecidos do poder de Estado.

 

A extensão dos perigos à segurança pessoal deve ser apresentada nos tons  mais sombrios, de modo que a não materialização das ameaças pode ser aplaudida como um evento extraordinário, resultado da vigilância, do cuidado e da boa vontade dos órgãos de Estado.

 

Como disse McNeil: "Políticos de toda a Europa usam o estereotipo de que 'os forasteiros são a causa da criminalidade' para vincular o ódio étnico, que está fora de moda, ao medo em relação à própria segurança, mais palatável."

 

 

GD: COMENTÁRIO SOBRE "PROCURANDO NA ATENAS MODERNA UMA RESPOSTA À ANTIGA PERGUNTA DE JERUSALÉM"

 

Deus é o resultado de um grandioso processo de sublimação. Ter conseguido concentrar a multiplicidade dos medos humanos em um medo só constitui uma fabulosa conquista cultural que durante séculos ofereceu sólido suporte para tornar tolerável a existência do homem, assolada por incontáveis perigos e incertezas impossíveis de adivinhar ou prevenir.

 

Deus não somente é incapaz de organizar por completo o caos e a falta de sentido da vida, como também ele mesmo contribui para conserva-los.

 

Embora na atualidade a tecnologia pretenda ocupar o espaço vacante da onipotência de Deus, essa carência que encontramos no fundo da condição humana persiste e é impossível de preencher. Desde os tempos antigos, os seres humanos inventaram todo tipo de explicação para compreender quem lhes roubou a base existencial que lhes falta.O ateísmo, o verdadeiro, aquele que consite em muito mais que não crer em Deus, e que se define por não crer na onipotência de nenhum Outro, não foi alcançado pelo Iluminismo. [qualquer que seja o Leviatã, mercado, Deus ou Stálin] poderia existir se a estrutura da subjetividade não estivessse afetada por uma carência que nenhum remédio pode curar.

 

O resultado do "progresso" é um bem muito escasso em um mar de infelicidade.

 

O poder do Outro primordial se consiste na possibilidade de nos negar sua satisfação. (...) Sem essa matriz na qual se constroui o edifício da subjetividfade, torna-se impossível compreender até que ponto o ser humano pode se submeter a formas inconcebíveis de escravidão.

 

CORRESPONDÊNCIA

 

DE GD PARA ZB

 

A civilização e o progresso não parecem ter incrementado  nosso sentimento de felicidade e dor.

 

Nada pode ser construído sem certra renúncia, embora isso se transforme em fonte de sofrimento e dor.

 

Claro que precisamos da lei para nos tornar humanos, mas também é certo que a lei contém algo desumano, algo que deve ser inoculado em  nossa existência. [!!! Para Gustavo Dessal os "humanos" só passaram a existir depois que apareceram as primeiras regras de civilização!]

 

O super eu é algo que  nos obriga a uma meta interminável e nos castiga tanto por tentarmos alcança-la quanto por não sermos capaxzes de fazê-lo.

 

DE ZB PARA GD

 

A Lei não é resultado/conseqüência/emanação, mas causa da realidade humana, incluindo-se a si mesma (o Talmude diz que o mal se origina no excesso de lei. E Kafka é ainda mais categórico: ser culpado significa ser acusado).

 

 

NÔMENO

Tudo aquilo que se esconde, que não aparece, que é velado, invisivel, o que está além, contrário de fenômeno.

 

 

TALMUDE

rel um dos livros básicos da religião judaica, contém a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus [Surgido da necessidade de complementar a Torá,

 

EPISTEMOLOGIA

 

1.                  reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, esp. nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento.

2.                  2.

freq. estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história; teoria da ciência.